Lima Barreto e os Bruzundangas: uma crítica à Primeira República do Brasil.

Lima Barreto escreveu um livro chamado “Os Bruzudangas”. No enredo, de forma resumida, é retratado o país fictício de Bruzundanga, onde o autor descreve também as condições econômicas e políticas desse local. Essa descrição feita por Lima Barreto trata-se de uma brilhante sátira que nada mais é que uma referência à Primeira República do Brasil. 

Para relembrar, a "República Velha" é o período que se iniciou no Brasil após a proclamação da República em 1889 e perdurou até 1930. Esse momento foi marcado predominantemente pelo governo de oligarquias (poder das elites agrárias). Também nesse período aconteceu a chamada "política café com leite" (alternância de candidatos à presidência pelas oligarquias mineiras e paulistas - maiores produtoras do leite e do café, respectivamente). 

No livro, há um capítulo chamado “As riquezas de Bruzundanga”, e nele, o café também é retratado como um dos principais produtos da economia bruzundanguense. Nas palavras de Lima Barreto: "...com o café dá-se uma cousa interessante. O café é tido como uma das maiores riquezas do país; entretanto é uma das maiores pobrezas." (p. 26). 

Aqui há uma denúncia à desigualdade econômica gerada pelas oligarquias agrárias: os latifundiários da economia cafeeira de Bruzundanga tinham grande influência para conseguir empréstimos do
governo a fim de salvar suas produções, pois, de acordo com eles "o café era o que sustentava a economia do país". Que "coincidência", não?

Logo, com os empréstimos milionários para a valorização do café, pode-se dizer que os latifundiários possuíam uma vida aristocrata - de luxo. E o ônus dos juros e impostos que aconteceram como consequência ficou nas mãos dos bruzundanguenses. "Eles, os oligarcas, nadam em ouro durante cinco anos, todo o país paga os juros e o povo fica mais escorchado de impostos e vexações fiscais." (p. 26)

Outra questão muito icônica da Primeira República do Brasil foi o chamado "voto de cabresto". De acordo com os interesses de cada oligarquia, de forma regional, a figura do coronel foi muito importante para mobilizar votos para os candidatos convenientes, através de uma coerção, já que os coronéis utilizavam da sua influência para forçar o voto da população em troca de dinheiro.  

No livro, Lima Barreto também satiriza essa questão no capítulo "As eleições". Mesmo que em Bruzundanga todos os representantes do povo deveriam ser eleitos através do sufrágio universal, o voto livre era uma grande ameaça aos oligarcas, uma vez que ele seria feito de acordo com as escolhas reais da população. Nas palavras do autor: “Os mesários da Bruzundanga lavravam as atas conforme entendiam e davam votações aos candidatos, conforme queriam.” (p. 48)

O que se conclui a partir desses exemplos citados no livro de Lima Barreto (fazendo o paralelo à República Velha Brasileira) é que, apesar de que Brunzundanga (e também o Brasil) seja uma terra cheia de riquezas naturais, enquanto ela fosse dominada por elites que exploram essas riquezas até que elas se esgotem e enquanto as elites apropriarem-se do poder e do governo toda vez que "necessitem" enriquecer, será praticamente impossível fazer com que as riquezas sejam destinadas à quem elas realmente pertencem: o povo. 

Lima Barreto (1881 - 1922) foi um dos mais importantes escritores brasileiros. Para ele, escrever tinha a finalidade de criticar o mundo para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas que, na sociedade, privilegiavam certas classes sociais, indivíduos e grupos. 



Comentários

  1. Ótimo texto, parabéns! Eu não conhecia essa obra, mas é interessante criar paralelos entre as características do 'fazendão' econômico que predominou na república velha e o que predomina hoje, com aprofundamento da nossa dependência de matérias primas sendo aplaudida pela classe política e midiática, tornando esse livro infelizmente ainda muito atual. Na minha concepção vivemos, de 1985 pra cá, a nova república velha.

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    1. ahhh, muito obrigada! (hoje que fui ver seu comentário) e sim, concordo com vc que a denúncia do livro ainda é válida... e realmente, a "redemocratização" ficou só no conceito mesmo!

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