Consumo e necessidade
Don Staler (2002) estuda a cultura do consumo estendendo o
período histórico de análise à modernidade, contrapondo-se àqueles que julgam
ser esse um fenômeno mais recente, pertinente ao mundo contemporâneo. Além de
ampliar a visão a respeito do consumo, ao incluir disciplinas como a
sociologia, a antropologia, a história e a geografia, Stlaer enfatiza que a
questão comum a todas elas é a natureza as condições sociais, buscando-se
investigar de que forma as percepções, escolhas, vontades e desejos individuais
interagem no contexto das condições sociais, instituições e sistemas.
Diferentemente do mundo moderno, as sociedades
contemporâneas caracterizam-se pela contínua luta do indivíduo por estabelecer
uma identidade, por efetuar escolhas entre o individual e o coletivo, entre o
público e o privado, entre o global e o local, numa disputa incessante pelo
poder. Em meio a esses conflitos, o consumo vem expressar o modo como se quer
(ou não) viver, como a sociedade é (ou deveria ser) organizada. Expressa,
ainda, a estrutura material e simbólica dos lugares em que se vive e o modo
como se vive neles. No estudo da relação do sujeito com essas estruturas
sociais encontra-se o conceito de necessidade.
Para Staler, o senso comum vê as necessidades, por um lado,
como naturais e evidentes, no caso das necessidades básicas de alimentação, saúde,
moradia, etc.; por outro, como arbitrárias
e subjetivas, tais como
preferências, desejos e caprichos, quando decorrentes das características
intrínsecas às pessoas. Entretanto, a natureza verdadeiramente social das
necessidades não se coloca em termos de influências sociais por meio das quais
os indíviduos são “moldados”, e sim de trazerem embutidas, em sua
externalização, os pressupostos de como o indivíduo pode, deve ou vai viver na
sociedade. Assim, as necessidades não são apenas sociais, mas também políticas, uma vez que envolvem
afirmações a respeito de interesses e projetos sociais. Ao afirmar que “precisa
de uma determinada coisa”, o indivíduo está fazendo uma declaração que indica a
natureza tanto social quanto política das necessidades, pois ele pretende ter o
direito a obter o que deseja, esperando que tanto os recursos materiais quanto
os simbólicos, como trabalho e poder, sejam alocados de forma a sustentara vida
que quer levar.
O mais importante nessa visão é que o conceito de
necessidades adquire uma dimensão mais ampla do que no pensamento utilitarista
liberal. Este não contempla os fatores sociais que são fundamentais na
constituição dos desejos, preferências e gostos. No entanto o indivíduo, ao
definir suas preferências e procurar satisfazê-las, é orientado por forças
culturais. E, estando absorto em suas crenças e verdades, dificilmente será
capaz de discernir sobre suas prioridades sem a influência dos fatores sociais.
Nessa perspectiva, a cultura não “influencia” o consumo; ao
contrário, a “cultura constitui as necessidades, os objetos e as práticas de
que se compõe o consumo.” Assim, “toda vida social é significativa, e as
necessidades e usos só podem surgir no interior de um determinado modo de vida:
somente em virtude da natureza cultural da vida social é que podemos ter
necessidades ou identificar os objetos que possam satisfazê-las”.
Para alguns autores, é possível identificar o que são
necessidades básicas porque sabemos quais necessidades têm que ser satisfeitas
para que qualquer tipo de cultura possa se manter, ou para que qualquer
indivíduo tenha condições de ser membro (de ter “participação” e uma
“identidade”): primeiramente, precisam estar vivos e ser saudáveis física e
mentalmente para poderem fazer parte de qualquer cultura. Assim, o modo como o
indivíduo define e obtém vida, saúde e sanidade mental pode variar
culturalmente, mas, até para que essa variedade possa existir, as necessidades
subjacentes precisam ser satisfeitas.
Slater (2002) destaca, na relevância desses argumentos, o
pressuposto de que é impossível identificar as necessidades básicas, como a
fome, independentemente das formas culturais específicas que elas assumem:
“vivenciamos todas as necessidades (inclusive as físicas) no interior da
cultura”.
Entendendo-se as necessidades básicas como aquelas
necessárias à participação cultural do indivíduo, é possível reivindicar um
“direito universal às condições necessárias a uma vida significativa como saúde
física e mental”. Entretanto, sociedades diferentes estabelecem requisitos
diferentes para a vida social, pois satisfazem as necessidades de saúde (física
e mental) de maneiras culturalmente específicas.
Essas abordagens consideram o consumo uma atividade significativa. As pessoas não consomem
baseadas nos instintos, como os animais. Ao contrário, pressupõe-se que elas
compreendem sua relação com as coisas do mundo – suas necessidades – em termos de projetos e metas, convenções e
normas sociais, conceitos implicados em ser humano ou ser uma sociedade humana.
Portanto, para Slater, todo consumo é
cultural. Isso porque:
- · Envolve um significado – para “termos uma necessidade” e agirmos em função dela, precisamos interpretar sensações, experiências e situações, e dar sentido a objetos, ações e recursos tendo em vista essas necessidades;
- · Os significados envolvidos são significados partilhados. As próprias preferências individuais se formam no interior de culturas, pois são estabelecidas com base no idioma, nos valores, nos rituais, nos hábitos, que são de natureza social;
- · Todas as formas de consumo são culturalmente específicas, articuladas em torno de modos de vida significativos e específicos;
- · É através dessas formas de consumo culturalmente específicas que produzimos e reproduzimos culturas. Ser membro de uma cultura implica o conhecimento dos códigos locais de necessidades e coisas.
(Sônia Regina M. Barone)
in MIGUELIS, Carmem. Antropologia do Consumo: casos brasileiros. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2007.

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