Sutiã? Pra quê?

Sempre dou risada quando lembro da primeira vez que ganhei um sutiã.

Eu chorei muito.

Aquilo era um símbolo de maturidade que eu ainda não estava preparada pra ter.

Eu tinha apenas 13 anos.

Minha vó e minha mãe decidiram que estava na hora de eu começar a usar.

Mas pra quê? Perguntei. Como sempre.

Elas disseram que era porque eu já estava me tornando uma mocinha pra ficar andando por aí com os biquinhos aparecendo na blusa e todos os homens vendo.

Eu me senti mais envergonhada ainda.

Tive rejeição pelos próprios seios, quando eu nem deveria saber o que era um sutiã ainda.

Engoli o choro. Experimentei o sutiãzinho.

Minha mãe completou: "Daqui a pouco eles vão crescer mais e você precisa usar para não deixá-los caídos mais tarde".

Eu não entendi qual seria o problema deles serem como são, mas me senti na obrigação de botá-los pra cima.

Nossa! Como aquele negócio apertando me incomodava.

Mas tudo bem, né? Mamãe e vovó colocaram na minha cabecinha que era feio mulher ficar sem sutiã.

O tempo passou e eu fiz 15 anos.

Apesar de que hoje eu saiba que os nossos seios não são feitos para ser bonitos, durinhos ou grandes (mas sim para produzir leite e amamentar), nos meus 15 as novelas e a tv me convenciam o contrário.

Quis o primeiro sutiã com bojo...

"Ah, mãe! Eu não estou satisfeita e quero usar bojo pra parecer que tenho seios maiores e mais firmes."

E assim foi, me enganando, me sufocando, me apertando por anos...

Cada vez que eu o tirava quando chegava em casa me sentia extremamente aliviada.

E assim eu refletia "quero tirar isso é da minha vida de vez, mas como fazer isso sem ser tachada de desleixada ou de puta?"

Foi um longo caminho de exercício interior de desconstrução.

É apenas um objeto. Um acessório. Uma peça desnecessária de roupa. É algo que me obrigaram usar quando eu tinha 13 anos. Mas quem disse que eu preciso realmente disso?

Carnaval. 20 anos. Blusa transparente.

Primeira vez sem sutiã em uma festa.

Levei muito sermão.

O flash da foto os capturou bem nitidamente.

Enfrentei-a.

"Qual o problema? É só uma foto! São apenas seios, pra quem já viu não vai ser nenhuma novidade, pra quem nunca viu, que veja o meu, não ligo mais pra isso." - disse.

Mamãe respondeu: "Ok. Só não me venha chorar se alguém te chamar de puta, se algo de pior acontecer porque estava provocando.."

Senti medo.

Pensei em voltar a usar.

Mas estava cansada (e muito convicta!)

Eu não preciso disso!

A sociedade que respeite meu corpo. (Sim, eu sei que não é assim que funciona, infelizmente!)

Mas, sabe?

Ah, esse sutiã inútil... mulheres que conhecem a experiência de viver sem ele que apreciem seus seios livres, quem não conhece, que tente ao menos uma vez!

Você verá e sentirá a liberdade em suas costas, em seu corpo, em sua mente e até em sua alma.

Entretanto, mais libertador do que não usá-lo é poder escolher usá-lo ou não.

Por isso, fica a dica: é maravilhoso a vida sem sutiã, mas se você quiser continuar com o seu, que continue e se sinta bem, linda e feliz assim, é você que manda.

Esse foi só mais um relato de como é demorado desconstruir que preciso de padrões estéticos.

E, principalmente, um relato de como é difícil pra mim entender que as mulheres podem também querer ser padrões, mesmo com a opção de serem livres deles.

Mas desde que não prejudiquem sua saúde para conquistar a imagem perfeita, tá tudo bem!

Bjo no coração e um abraço sem sutiã. Rs

(Milan, F.)

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