Serhumanidade
(...)
Às seis da manhã, precisamente, tendo à extrema direita. Não me interessam os problemas do mundo, já tenho problemas demais - só me interessa conseguir um café quente. Às nove da manhã, leio o jornal e descambo pro maoismo: só mesmo a luta armada pode mudar tudo. Até que fumo um baseado e recaio pra direita libertária. "Cada um é cada um e o Estado não tem nada a ver com isso."
No primeiro gole de cachaça, abraço moradores de rua e pergunto: "Cadê esse Estado que não te dá casa, comida e roupa lavada?". Só usei cocaína uma vez e, depois, nunca mais: quando vi estava fazendo discursos a favor da família e da propriedade. O lança-perfume, ao contrário, me proporcionou quinze segundos do mais puro socialismo utópico, ao contrário do ecstasy, que me presenteou com quinze horas de anarquismo egoísta.
O anarquismo coletivista só conheci através do ácido lisérgico, num Carnaval da praça Quinze, enquanto a ayahuasca me apresentou pro anarcoprimitivismo - aquela vontade de morar no mato. Como podem ver, não mereço que vocês percam seu tempo criticando minha posição política: ela muda de acordo com o psicotrópico.
No entanto, independentemente da droga ou da ideologia consumida (e da certeza que toda ideologia é uma droga), me espanta quando classificam de esquerdistas pautas tão unviersais quanto a equidade de gêneros e raças, o direito da mulher ao aborto, o direito universal à moradia, à saúde ou à educação. Ser contra a garantia desses direitos universais não é posição política, é falta de serhumanidade.

in DUVIVIER, Gregorio. Caviar é uma ova. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.

Comentários
Postar um comentário